
Antes de ingressar com tanta energia e prazer no mundo do trabalho, tive a chance de marcar essa transição na minha adolescência com uma bela viagem onde conheci melhor as origens da minha família paterna, nossas raízes em outro país: o Peru. Foi essa experiência um marco, que saí de simplesmente curtir a vida para começar a ganhar meu próprio dinheiro.
O ano era 1994. Entre o primeiro e o segundo semestre, eu aos 12 anos e meu irmão aos 10, começamos a ter contato com algumas fotos antigas e documentos dos nossos avós paternos. Sempre tive essa alma investigativa, era a criança que ia na casa das tias e elas tinham que ficar de olho, porque senão abria todas as gavetas para saber o que tinha dentro.
Queria entender o mundo e para mim o mundo mais legal era o das gavetas, dos papéis de carta e adesivos da minha prima Renata, dos lápis de cor da tia Rê no Rio de Janeiro, e dos livros e brinquedos da tia Cida em Piracicaba. Comecei a ter contato com as cartas de amor que meu pai trocava com minha mãe, quando ele ia para o Peru passar um tempo. Encontrei algumas cartas e fotografias antigas e essa referência do meu pai começou a ser cada vez mais intensa. Como cresci sem ter o pai ao lado, passei a sentir falta da figura paterna.
Eu, meus irmãos e primos tivemos um avô materno muito presente, mas ele estava começando a sentir o avanço da idade de forma ainda mais veloz, porque sofria com o Parkinson. Nós ajudávamos a cuidar dele, a dar banho, levar para tomar sol, dar café na boca. Tudo isso eu tinha como responsabilidade quando estava com cerca de 12 anos. O Parkinson o puxou ladeira
abaixo, fisicamente falando. Hoje, os recursos, medicamentos e tratamentos são mais amplos.
Em apenas dois anos, vimos o Parkinson levar meu avô. Eu e meus irmãos nos assustamos com o rápido avanço da doença, muito evidente de 1993 para 1994, quando nos mudamos para a casa dele depois de uma temporada com nossa mãe em Santos.
Com sua doença, tivemos o sentimento de que estávamos realmente perdendo aquele que havia se tornado nossa referência de pai. Enquanto isso, eu buscava e encontrava cada vez mais cartas e fotos antigas. No meio de todo esse material, o artesanato peruano e os objetos da família paterna davam uma tônica muito peculiar àqueles arquivos. Meu avô materno morreu em 1996, quando eu tinha acabado de completar 14 anos e visitado o Peru duas vezes.
Nós tínhamos, por exemplo, uma blusa de frio de alpaca e todas essas coisas familiares a esse tipo de artesanato, porque recebíamos muita coisa que nossa avó paterna enviava do Peru e também havia trazido nas poucas vezes que pôde nos visitar no Brasil. Por isso também comecei a ficar ansioso para visitar a terra do meu pai, fiquei obstinado, tinha muita curiosidade.
O que eu fiz? No meio do ano de 1994, mandei uma carta para meu tio Ricardo – sim, ainda não era e-mail – e comecei a me comunicar com ele.
— Tio Richard, queremos visitar você aí – a gente dizia nas primeiras cartas.
— Para vocês virem temos que fazer algumas coisas, como tirar passaporte e tomar vacinas – ele respondia.
Comecei a me entusiasmar e contagiar meu irmão, e depois inspirei também minha avó, que liberou parte do dinheiro de uma poupança que havia feito para nós e nos deu condições de comprar as passagens.
Desde as datas de ida e volta, até nosso roteiro no Peru, eu e meu irmão organizamos tudo por cartas com meu tio, que nos orientava e nós seguíamos suas recomendações. Depois, começamos a ir até uma agência de turismo com nossa avó, que supervisionava e pagava tudo.
Acabamos perdendo três dias de viagem por causa de uma falta de informação: eu e meu irmão precisávamos ter a certidão de óbito do meu pai para comprovar que minha mãe – que havia ido conosco ao aeroporto – não estava nos sequestrando ou nos levando para o Peru contra a vontade dele.
Quando tentamos fazer o embarque, ninguém – eu, meu irmão, minha mãe, nem mesmo nosso tio Ricardo – sabia sobre a necessidade do atestado
de óbito nesse caso. E quem disse que meu tio tinha um atestado de óbito atualizado? Acabamos embarcando somente três dias depois, porque nosso tio teve que ir ao cartório, tirar o atestado de óbito atualizado e passar para a companhia aérea por fax.
Passamos quase um mês em Lima, matriculados em cursos de verão do Markam College, um colégio britânico bilíngue. Também fomos à praia, fizemos amigos, estivemos muito tempo com nossa avó Emma, conhecemos todo mundo, e no outro ano, o que aconteceu? Quisemos ir de novo…
Meu tio Ricardo e minha tia Mary passavam as férias numa casa na praia e nos divertíamos muito por lá. O mais legal foi que conseguimos construir esse senso familiar do outro lado.
Marcamos o fim da nossa infância com uma conquista nossa. Um gosto de completude e o pertencimento a uma cultura milenar, um país e uma família cheios de riquezas humanas.
1Saindo do “básico”
A adolescência foi um período de muitas descobertas, principalmente no mundo do empreendedorismo. Parte da minha adolescência foi feita de brincar bastante no clube, ir ao centro da cidade tomar sorvete, ao shopping, sair para andar de patins, ouvir música, dançar, jogar bola. Mas enquanto muitos garotos e garotas da minha idade estavam somente pensando na programação com os amigos ou se teriam uma roupa nova descolada para essas ocasiões, eu já estava disposto a dividir a minha agenda entre lazer, estudos e trabalho.
Eu já queria ir além da convencional “mesada” comum aos meus colegas da escola.
Entusiasmado por buscar minha própria fonte de renda, fui aprendendo que o dinheiro tem uma dinâmica própria.
Eu observava o que ele poderia comprar e percebi que comprar as coisas que queria dependia muito mais de mim do que de outras pessoas da minha família.
Como adolescentes, eu e meu irmão éramos muito amparados pelos nossos avós maternos, que nos davam a educação formal e também o suporte
financeiro. Mas a dinâmica própria do dinheiro se revelou quando descobri que poderia ir além do “básico” e comprar algo mais do que aquilo que a mesada nos possibilitava.
Eu e meus irmãos morávamos muito bem com nossos avós, em um apartamento grande, localizado na região central de Piracicaba, muito bem cuidados, com empregada doméstica, roupa lavada, televisão a cabo. Mas todo adolescente quer algo a mais que ninguém pode dar. E o protagonismo da minha história profissional se desenvolve quando decido que quero algumas coisas “para já”, como uma bicicleta da moda, um dinheiro para uma viagem com meus primos, ir ao shopping para comprar uma roupa ou ao cinema, entre outros desejos comuns à adolescência.
Não fui um garoto que passou dificuldades como muitos outros, mas sim que era incansável no querer. Eu queria muita coisa.
O adolescente, em geral, deseja coisas diferentes, de acordo com as escalas proporcionais das realidades financeiras de cada família. Se em uma família bem abastada quer uma moto, em outras desprovidas do básico ele quer comida e roupa; já em outra com renda mediana, como a nossa, ele não pode sonhar além do básico a não ser tendo no trabalho a realização de suas vontades.
Sendo assim, aos 15 anos, em 1997, comecei a desenvolver em mim uma área mais empreendedora e desde então percebi que realmente sou um cara ousado, que se joga, destemido, comunicativo, capaz de fazer o que for preciso – dentro da ética e da legalidade – para conseguir o que quero.
Comecei a trabalhar como animador de festas infantis, me vestindo como palhaço ou atuando como monitor das brincadeiras. Acredito que o empreendedorismo começou a se revelar mais forte quando eu, aluno de escola pública, entendi que precisava estudar em um colégio particular para melhorar minha formação. Ainda na oitava série, passei a estudar muito para fazer exames para ganhar alguma bolsa de estudos para o colegial.
Certo dia, aconteceu algo que marcou esse início da minha jornada profissional: meu empreendedorismo se aliou ao espírito artístico e acabei descobrindo que algo extremamente divertido e prazeroso para mim poderia se tornar um dos meus maiores projetos.
2#TudoComCH: Nasceu Papai Noel

Ainda no ano de 1997, eu estudava em uma escola de inglês e informática, então chamada DataBrasil, hoje PoliBrasil. Todos os professores e alunos já me conheciam pela “hiperatividade”, meu jeito intenso de me comunicar e não deixar que nenhuma aula fosse monótona, até porque era bem comum eu ser chamado pelos professores à frente da sala para entreter um pouco a classe nos intervalos. Perto do Natal, um dia o dono da escola, Luiz Andreelo Filho, me deu uma roupa de Papai Noel e falou:
— Pelo amor de Deus, Bruno! Você é muito elétrico! Vai pra rua gastar essa energia toda! Toma aqui essa roupa e veste, que vou te pagar para entregar folhetos da nossa escola no centro da cidade.
Eu adorei aquilo! Fiquei fascinado logo no primeiro dia. Mesmo cozinhando dentro daquela roupa, no calor do verão seco e sem vento de Piracicaba, nem me importava com isso, porque meu foco estava na oportunidade que aquilo estava gerando: nascia ali meu primeiro personagem, um protagonista que eu poderia criar e moldar completamente. Tinha acabado de cursar teatro, onde havia criado muitos personagens como um padre, um bêbado, um menino, um mudo, um grilo falante e feito amigos.
No segundo dia daquele trabalho já queria arrumar uma barba branca que parecesse de verdade e um enchimento para a barriga. Tínhamos em casa a Teresa, cuidadora do meu avô, que depois de sua morte continuou em casa cuidando da gente. Ela me ajudava a arrumar a roupa, me vestir com a fantasia e ainda a maquiagem.
O personagem do Papai Noel que desenvolvi saía do convencional, porque eu mesmo sempre fui assim: não aceito o básico. Minha vontade de encontrar uma barba branca “de verdade” e conseguir um enchimento para a barriga que fosse o mais real possível, sem me importar com o calor que o verão de Piracicaba fazia dentro daquela roupa era, sem dúvida, aquele protagonista falando dentro de mim que algo tão prazeroso merecia também dedicação, me fazendo acreditar que poderia fazer da minha nova paixão um grande e divertido trabalho. Eu e todos os professores e alunos ríamos muito. Decidi dar ouvidos ao dono da escola e sempre serei grato por isso. Entendi que na comunicação não basta só a gente falar, ouvir também é muito importante. Pessoas de todas as idades vinham conversar com o Papai Noel, contar sua histórias de vida, seus sonhos, seus desejos de Natal. Me enxerguei como um meio de escuta, como ponto de esperança naquela roupa.
Hoje posso dizer que aquele adolescente continua vivo em mim com toda sua vitalidade, entendendo seu papel de líder e protagonista, justamente por ter compreendido sua necessidade naquela época: eu sabia que, embora fosse um estudante, não queria ficar parado, queria me movimentar e trabalhar.
Acabei me tornando uma junção daqueles perfis: o adolescente que curte bem seus momentos de lazer, o estudante dedicado e carismático e o empreendedor que vê até mesmo em uma panfletagem numa roupa quente de Papai Noel uma grande oportunidade.



3O encontro
O ano de 1997 foi intenso em relação às minhas descobertas e o surgimento de grandes oportunidades. Mas o modo como uma delas se apresentou considero que foi particularmente fascinante.
Estava estudando na Escola Estadual Prudente de Moraes, que eu amava e, à medida que se aproximava o final do ano letivo, vários colégios particulares vinham oferecer oportunidades de avaliação para bolsas de estudos aos alunos. Veio um homem representando o então Alphaville COC (hoje COC Piracicaba) e fez toda sua apresentação, explicou o funcionamento e falou muito bem do centro de ensino, e fiquei encantado com a imagem daquele colégio cheio de tecnologia. Então pensei:
— Quero estudar nesse colégio, mas minha família não vai ter dinheiro para pagar a mensalidade.
Depois de apresentar o colégio em outras salas, esse homem saiu no corredor e fui atrás dele. Desinibido como sempre, deixei meu protagonismo tomar a frente e não tive qualquer dificuldade em fazer contato.
— Oi, tudo bem? Com é seu nome mesmo? – perguntei.
— Meu nome é Edvaldo, mas pode me chamar de Zago – ele respondeu, parecendo também uma pessoa de fácil comunicação.
— Eu me chamo Bruno e quero falar uma coisa muito séria para você: vou estudar no seu colégio, quero muito isso! Ainda não sei como, mas sei que de algum jeito vou estudar lá.
Quando falei isso, ele ficou totalmente impressionado com minha atitude, com a ênfase.
— Puxa! Que bom que você gostou da nossa escola! Espero que você consiga mesmo! Fique atento ao exame de bolsas que logo será divulgado.
4Meu palco na rua
Eu tenho desde sempre o senso de que tenho um palco, o meu palco, e por buscar ocupar esse espaço, ocupei também o papel de protagonista da minha própria vida.
Enquanto o Natal de 1997 se aproximava mais ainda, eu estava na rua, vestido de Papai Noel, fazendo aquela panfletagem da escola de informática e inglês, quando um homem veio falar comigo.
— Oi, tudo bem? Nós temos uma casa de bingo e vamos fazer um evento no estádio de futebol aqui da cidade. Como está próximo do Natal, queremos que o Papai Noel chegue de helicóptero no meio do estádio, você quer ir? A gente te paga!
Como recusar? O trabalho era legal, o dinheiro era uma ótima quantia. E o adolescente – que não tem nada a perder – pirou quando se deu conta do que estava acontecendo.
— Meu Deus! Que legal! Eu vou descer de helicóptero!
Sempre tive muita liberdade dentro de casa para aceitar ou recusar propostas de trabalho, e se sentisse que havia qualquer barreira me impedindo de conseguir o que queria, corria atrás e conquistava.
Aceitei a proposta, me preparei, e no dia do evento desci de helicóptero no Estádio do XV de Piracicaba. Naquele momento, meu palco ganhou uma expansão inimaginável. Afinal, participar de uma ação como aquela significaria momentos de glória para qualquer artista de rua, como eu era na época, um jovem de 15 anos tirando onda, ainda aprendendo tudo.
No outro dia eu já estava na rua de novo vestido de Papai Noel, entregando panfletos, quando uma amiga da minha avó, dona Cleusa, que havia sido síndica do nosso prédio, se aproximou.
— Oi Bruno, tudo bem? Moro no Edifício Canadá e vamos fazer uma decoração natalina bem bonita. Gostaríamos de ter um Papai Noel na portaria para interagir um pouco com os moradores – propôs.
Ela estava me convidando para ser o Papai Noel de um dos prédios elegantes daquela época, onde moravam famílias de sobrenomes tradicionais de Piracicaba, com elevador panorâmico, localizado de frente para a praça José Bonifácio, a principal da cidade. Eu morava três quadras dali.
A administração do prédio havia contratado uma decoração realmente bem elaborada, com sistema elétrico para iluminar toda a fachada e o local acabou se tornando uma atração turística, de tão bonito que ficou. A proposta era que eu ficasse das 19h às 22h interagindo com os moradores. Fiquei feliz e negociei com eles o valor – que era sensacional – e fui para a recepção do edifício, todos os dias, vestido de Papai Noel. Uma grande fila acabou se formando em volta daquele (meu) “palco” que nascia ali.
As pessoas também queriam passar em frente ao prédio para tirar fotos e falar com o Papai Noel que estava esbanjando simpatia pela cidade. Até mesmo a EPTV Campinas, afiliada da Rede Globo, noticiou sobre essa decoração do Edifício Canadá.
Eu inventava música, cantava, brincava, tirava fotos com as pessoas, contava piadas e os moradores do prédio – que naturalmente subiam e desciam todos os dias – começaram a se afeiçoar a mim de tal forma que dessa circunstância surgiram boas amizades.
Me lembro, por exemplo, do relato de uma grande amiga minha que conheci durante esses dias de trabalho no Edifício Canadá. Anos depois, Priscila Corrente contou que às vezes estava triste em seu apartamento e ficava melhor depois de rir muito sozinha, ouvindo as músicas que eu cantava. Então, ela e a mãe Eliana desciam e me mandavam lanches, conversavam comigo... Isso me possibilitou conhecer melhor alguns dos moradores do prédio.
Passei a entender que meu palco também era dinâmico, que podia ser onde eu enxergasse oportunidade de armá-lo: em casa, na escola, na rua, no estádio, na portaria de um prédio… não importava.
Protagonista é sempre protagonista, não importa se em um palco gigante ou em um pequeno tablado, se descendo do céu em um helicóptero ou panfletando folders debaixo de um sol escaldante, um protagonista encara tudo como boas experiências.
5Portas se abrindo
Entre os moradores do Edifício Canadá estavam algumas famílias tradicionais e que muito contribuíam para a cidade, e um desses encontros marcou minha adolescência. Acabei descobrindo que o professor Edvaldo Zago, que havia feito a apresentação do Alphaville COC em minha sala de aula na escola pública, na verdade, era o dono do colégio e morava lá. Conheci então sua esposa e grande professora Marta, e também suas filhas. Quando me dei conta de quem eles eram, mais uma vez coloquei meu protagonismo para guiar minhas atitudes – o que foi uma ótima decisão.
— Professor Zago, você sabe quem sou eu? Sou o Bruno, aquele menino que veio falar alguns meses atrás que um dia ainda iria estudar na sua escola.
— Oh, Bruno! Que legal te reencontrar. Como assim? Então o Papai Noel do nosso prédio tem 15 anos? Vamos ter um exame de bolsas de estudos em nossa escola. Você não pode faltar!
Estudei, fui muito bem na prova, consegui um super desconto e em 1998, aos 16 anos, me tornei bolsista do colégio COC, onde fiquei três anos. Além
de bolsista, também me tornei protagonista na escola, chegando inclusive a dar aulas de reforço de algumas matérias, sendo monitor de provas e professor de teatro. Inventei até uma rádio interna que eu apresentava nos intervalos. Eu criava cursos, festas e outras atividades culturais. Participei também de festivais de teatro e literatura.
Dentro dessa escola eu pude vivenciar os dois lados da moeda, do adolescente que estudava e trabalhava, mas que também se divertia muito. Fiz amigos e amava o ambiente, levei muito puxão de orelha da Marta Zago, e ao mesmo tempo entrei de cabeça no mundo do trabalho. Tive a oportunidade de ser monitor de prova de vestibular e de trabalhar como animador de alguns dos eventos que eles realizaram e ainda gravar matérias de TV com Kal Mattus e outros apresentadores locais. Aprendi muitas coisas com a Marta, com o Zago, suas filhas, os professores e funcionários da escola. Lá, mais uma vez, experimentei a educação com amor.
Na época da minha entrada na escola já era o segundo ano que trabalhava como Papai Noel e queria inovar esse projeto de Natal. Não queria mais ir para a rua, me sentindo um animador comercial. Queria algo artístico e teatral e na escola havia um produtor de vídeos que hoje é diretor da Rede Brasil de TV. João Luiz Borges viu em mim carisma e comecei a fazer vídeos para a escola de divulgação, comercial etc. Então ele disse:
— Vou ser diretor de um programa de TV na Band e preciso de um animador de plateia, você quer fazer?
Eu disse sim. Esse programa era gravado no Thermas Water Park, que tem toboáguas, várias piscinas e fica em São Pedro, uma das cidades de águas termais do Brasil. Assim, minha experiência profissional ia se tornando cada vez mais ampla, mais rica e mais variada. Fiz curso de Teatro com o apresentador do programa, João Vitor, filho do João Andrade e da Silvia, diretores do Thermas, e ia sempre com amigos em comum curtir o Carnaval no parque, apresentar eventos e animar festas. Foi nesta época também que nasceu no Thermas um dos grupos de animação musical mais bem-sucedidos do interior de São Paulo, o Axé 40 Graus, do meu amigo Mateus Sabatim, que também conheci no curso de teatro.
Como minha adolescência foi marcada pela transição de deixar de brincar para trabalhar, percebi uma fase capaz de canalizar a minha curiosidade de experimentação para atividades positivas e criativas. Brinco que não tive tempo de saber como era usar drogas, por exemplo, ou tomar grandes porres – porque canalizei toda essa energia para o mundo do trabalho, tanto que
isso gera um impacto positivo sobre mim ainda hoje. Para mim não tinha tempo ruim, me lembro que desde os 15 anos eu pegava ônibus, taxi, carona, tudo que fosse necessário para chegar aos compromissos.
Gosto de sair, dançar e fazer algumas coisas porque já trabalhei mais de 20 anos de forma muito intensa, não raro desistindo de curtir eventos e festas. Mas não vejo esses momentos como um “alívio” do trabalho, porque não vejo o trabalhar como um peso, e sim como algo prazeroso.
Considero que esse período, dos 15 aos 18 anos, corresponde aos embriões dos grandes projetos que eu, como líder e protagonista, vivencio hoje, a gênese de todo meu sucesso. Nesse período inicial pude exercitar variadas ações sem uma necessidade muito intensa do dinheiro, porque eu tinha o básico em casa: o “arroz com feijão”, o sustento diário. Não comecei a trabalhar por necessidade, mas sim por vontade própria, para sentir a independência que fortalece a autoestima. Pude escolher, exercitar o meu prazer de fazer coisas agradáveis e descobrir o que no trabalho me agradava mais. Por isso acredito que prazer e alegria no trabalho devem andar unidos, sempre que isso for possível.
6Criatividade ou inovação?
Olhando para minha história até aqui, muitos podem imaginar: “Puxa! Como o Bruno é criativo” ou “Como o Bruno é inovador”.
Basicamente, conforme falo em minhas palestras, considero que criatividade é o processo resultante de uma série de etapas que precisam de condições básicas para acontecerem ou é resultante da pressão, de um momento de necessidade. A pessoa que não tem dinheiro para se alimentar à noite vai ter que ser muito criativa para fazer alguma coisa acontecer durante o dia. E mesmo sendo criativa, às vezes não vai conseguir.
Comigo a criatividade é resultante do processo natural entre a ideia vir à cabeça, eu processá-la e testá-la com outros, até validá-la. Sim, porque às vezes vem uma ideia muito boa, eu consigo processar claramente por um tempo e quando compartilho com as pessoas, nenhuma delas entende, nem valida. Fato é que muitas vezes precisamos buscar a validação verbal de uma ideia criativa e depois validá-la em outras esferas.
Entendo que criatividade é o processo que vem para transformar situações e para atender alguma questão ou situação, demanda ou necessidade. Já a inovação é a forma de colocar a ideia em prática, a forma de executar aquilo que até então tem se considerado criativo.
A criatividade na minha vida emerge ao desenvolver projetos que vêm como resultado dos meus pensamentos, o DNA do meu coração e da minha mente, e é validada por referências externas. Já a inovação acontece quando associo minha criatividade a um método meu, associo a minha vontade de vê-la acontecendo ao meu diferencial e a desenvolvo do começo ao fim, do pensamento à prática. Considero que esta seja a forma como a criatividade e a inovação trabalham juntas.
Vejo muita gente falando “ah, fulano tem a mente criativa!”. Sim, ele pode pensar qualquer coisa, mas para mim a criatividade não sai do campo das ideias sem a inovação, por isso considero que as duas andam de mãos dadas.
A criatividade é quem inventa, a inovação é quem executa de forma diferenciada. A inovação é o que faz a coisa acontecer com identidade própria.
Eu vivo de forma criativa, porque consigo achar vários caminhos para um problema, como uma conta de matemática, que você pode dizer que 10 pode ser o resultado de 2x5 ou 5+5, ou até mesmo de 5+2+3. E a inovação é como eu faço. Por exemplo, a criatividade iniciou no momento em que utilizei a fantasia de Papai Noel; quando desenvolvi o personagem, fiz ele acontecer; e a inovação foi como eu poderia fazer ele acontecer a partir do segundo ano, para não ter meu projeto tratado simplesmente como a ideia de um animador de rua entregando balinha. Eu queria mais do que isso e essa inquietação, quando bem trabalhada, gera inovação.
Tenho clientes que são super criativos, que entendem muito de comunicação e marketing, mas não sabem executar. Assim como tenho clientes que são muito bons de execução e não conseguem conceber uma ideia, um objetivo final. Isso é muito comum.
Penso que o que me salvou muitas vezes profissionalmente e me trouxe um olhar resiliente para o futuro foi o fato de eu ter conseguido perceber em mim esses dois fatores, formando um processo criativo que se executa com um traço próprio e não fica somente no campo das ideias. Gosto disso,
sou criativo e inovador e, para mim, isso serviu de protagonismo no exercício da liderança.
7Criatividade, inovação e responsabilidade
Quando se fala em criatividade e inovação, é interessante também quebrar o paradigma de que esses fatores estão sempre ligados à desorganização e irresponsabilidade, com atitudes impulsivas. Na verdade, a criatividade pode até nascer e se desenvolver de alguma forma em um ambiente caótico, mas a inovação não, porque ela consiste no processo de achar uma forma eficiente de realizar aquela ideia criativa. Se isso não estiver bem organizado e programado, por melhor que seja essa ideia, ela pode não ser colocada em prática. Se não houver organização e responsabilidade ela não nasce.
Eu mesmo tive que aprender isso aos 18 anos. No ano de lançamento da Casa de Noel, estava pedindo patrocínio na Florense, uma marca de móveis planejados do Sul do Brasil que havia acabado de instalar sua loja franqueada em Piracicaba. O dono era o Marcos, que depois se tornou nosso amigo e me alertou:
— Bruno, eu patrocinei o evento. Está sendo o maior sucesso, mas antes tive muitas dúvidas! Você pediu uma reforma completa de uma cozinha de um evento, algo enorme, e o fez vestido de chinelo e bermuda? Não pode! Só fiz porque acreditei muito em você e paguei para ver.
Cristiane Colpas, uma das pessoas que organizou a primeira edição do evento comigo naquele ano 2000, ri dessa história até hoje. Isso foi uma grande lição para desenvolvermos um protocolo cada vez mais profissional para abordar empresas em busca de patrocínio. Senão não funciona.
Aprendi com esse baque. Ao longo dos anos, fui entendendo que existem diferentes contextos e em muitos deles, para provar que minha ideia vale a pena, é preciso mostrar que também sou organizado e tenho responsabilidade, que minha imagem está alinhada a determinados padrões. Quando me tornei publicitário, também entendi que o estereótipo do publicitário cabeludo, cheio de roupas malucas e gírias não é sempre verdade.
Olhando para todo este cenário que envolve criatividade, inovação e responsabilidade, você pode me perguntar:
— Bruno, como é possível conciliar o processo de criatividade e inovação à responsabilidade?
Bom, o primeiro aspecto que vivenciei foi: cerque-se das pessoas em quem você pode confiar. Crie um time duro de pessoas, eu fiz isso e agradeço muito até hoje. Pessoas que te incentivam, acreditam em você e conseguem compartilhar atividades com você. Pessoas diferentes, complementares, mas com valores parecidos, olhares parecidos sobre os negócios, sobre o próximo, sobre o ser humano.
Segundo aspecto que aprendi: tenha senso de realidade. Às vezes você tem um processo criativo, mas ele não é passível de execução. Ele não é possível, você não vai conseguir mesmo, ninguém comprou sua ideia. Por que estou falando isso? Porque em alguns projetos pouca gente comprou minha ideia. Mas não foi zero, foi pouca gente. Aprender a aceitar o zero também é importante. O prazer do sucesso foi bom porque tinha pouca gente, mas se ninguém acreditar (zero pessoas) você não consegue, porque precisa do primeiro aspecto: pessoas em quem possa confiar para validar e tocar suas ideias com você.
Terceiro aspecto que vivenciei: se existem pessoas na sua equipe, faça um teste com elas para ver se conseguiram comprar de verdade sua ideia, não desista porque não vai ser fácil. Mas vai valer a pena ter toda a equipe engajada.
Eu menciono esses três aspectos porque os vivi. Escolhi não desistir e viver cada acerto e cada erro, para aprender o que é inegociável para ser protagonista.

8O sucesso nos rodeia
Nem só de inspiração vivem a criatividade e a inovação, mas também de apoio e respaldo nos momentos certos. E foi assim que me senti, por exemplo, com a força que recebi dos educadores Edvaldo e Marta Zago. Eles foram importantíssimos para mim, porque me ouviram e incentivaram na estruturação da Casa de Noel, conseguindo reuniões com profissionais que me orientaram de forma essencial, para conseguir encontrar o melhor caminho para este projeto da forma que eu queria.
Me lembro de uma vez em que eu e o Zago ficamos horas esperando e acabamos não sendo atendidos numa reunião que estava marcada com a coordenadora de marketing do Shopping Piracicaba. E ele, um empresário super ocupado, estava lá comigo, acreditando em meu projeto juvenil. Estávamos alinhados na frequência do acreditar, do realizar, um engenheiro agrônomo, empresário bem-sucedido, dono de escola e um jovem sonhador. Isso não é incrível?
Luiz Andreelo Filho – que me deu aquela despretensiosa roupa de Papai Noel – também foi outra pessoa muito importante para mim neste processo criativo, porque deu a ideia de canalizar toda a minha energia, minha criatividade e fazer disso tudo algo realmente produtivo. Depois, ainda aprendi muito sobre marketing trabalhando por alguns anos em sua escola de informática e idiomas, convivendo com sua gerente Magali Aniceto e sua filha Fernanda Andreelo. Não posso me esquecer dos conselhos preciosos que recebi de meus tios Rê, Cida, Fer e Duar. Os quatro foram uma espécie de anjos em muitas ocasiões, afinal, me mostraram que ética e valores não são negociáveis, que sonhos para se realizarem precisam ser colocados no papel e que muitas coisas acontecem no tempo certo.
Entre os tantos amigos que me deram a oportunidade de trabalharmos juntos, o trio Juliano Dorizotto, Cristiane e Maurício Colpas. Realizarmos juntos a primeira Casa de Noel foi um verdadeiro milagre criativo. E para Cristina Anselmo, minha parceira de projetos por tantos anos, me sobram admiração, agradecimento e amizade, pois só nós sabemos as batalhas profissionais que tivemos para consolidar a marca Casa de Noel. Sem contar nos desafios artisticos que sempre tiveram meu amigo e grande professor da vida Hermes Petrini como mentor.
9Falando com a massa: Nossos olhos brilham!

Nossos olhos brilham! Tenho uma equipe que acorda todos os dias acreditando em novas ideias, ações diferentes e realizações fantásticas. Criando desde 2005 com o @mbmideias, tenho a certeza de que tantos caminhos nos trouxeram a um amadurecimento, principalmente humano.
Colecionamos projetos especiais, eventos de diversos setores, publicações e livros, consultorias de marketing, modelagens, roteiros. Participamos da transformação de empresas, de vidas.
Para isso, temos uma equipe fixa enxuta, e contamos com muita gente bacana em cada projeto: sócios, parceiros, profissionais terceirizados, fornecedores, patrocinadores e clientes. Acreditamos no trabalho multimídia e além da técnica, estamos prontos para fazer o que gostamos, com responsabilidade, criatividade e sobretudo, amor.
Gostamos de agradecer pelo que temos, somos gentis, damos as mãos ao sucesso. Temos uma identidade pautada por três cores que dizem muito sobre nós: o magenta é amor pelo que fazemos; o azul ciano é responsabilidade e o laranja é comunicação criadora.
Alegria e trabalho, entusiasmo e engajamento... Todo dia o sol se põe, porém, todo dia pode nascer ensolarado.